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Treinamento em altitude: duração, freqüência e metodologia


Por Ricardo D´Angelo | 27/10/2009 - Atualizada às 11:07

Sigo no tema do treinamento em altitude. Um camping de treinamento em altitude dura em média três semanas, período suficientemente longo para provocar alterações nas características individuais dos atletas. A experiência tem mostrado que os repetidos períodos vividos em altitude (duas ou três vezes ao ano) provocam um maior efeito na capacidade de rendimento da resistência do que um simples camping de treinamento, reduzindo sensivelmente as fases de aclimatação e re-aclimatação (Bueno, 1998).

O objetivo do primeiro camping de treinamento, no início da temporada, é melhorar o condicionamento básico e o metabolismo aeróbio. O treinamento é orientado durante o segundo estágio em altitude conforme a periodização. Mas os atletas, que competem na temporada indoor, precisam de um pequeno período de recuperação antes de partir para o treinamento em altitude.

Aqueles que não participaram da temporada indoor ajustam seu segundo período em altitude de acordo com o primeiro bloco de competições ao ar livre. Os atletas que tem a possibilidade de participar de um terceiro camping de treinamento no ano devem fazê-lo no período correspondente das competições principais do ano, normalmente entre junho e agosto. Mas é válido lembrar, que para tanto, é preciso um distanciamento entre os blocos de competições geralmente de cinco a seis semanas e de três a quatro semanas para o treinamento em altitude, além de duas a três semanas para a re-aclimatação antes da competição.

O programa de treinamento em altitude deve ser muito específico e conter os elementos de preparação de todas as competições (Bueno, 1998; Popov, 1994). Quanto à metodologia de treinamento empregada, as proporções entre o volume e a intensidade na altitude dependerão do objetivo do atleta. Além disso, a planificação do treinamento sempre deve considerar os efeitos da hipóxia. Esses efeitos podem estar determinados de acordo com a freqüência cardíaca e dos níveis de lactato de cada atleta.

Isso acontece, porque devido às reservas alcalinas reduzidas de um limitado VO2max causado pela hipóxia e uma reduzida capacidade de proteção do sangue, os níveis de lactato sanguíneo na altitude são consideravelmente mais altos do que aqueles encontrados em cargas iguais quando aplicadas em nível do mar. Por esta razão, não se recomenda tentar em altitude, sessões de tolerância de lactato, bem como cargas altas de intensidade e volume (Dick, 1992).

O treinamento em altitude a 2.200 metros, por exemplo, em comparação com o treinamento ao nível do mar, pode ser responsável por 10% a mais de carga no organismo. Isto significa que uma carga de resistência de 4m/seg (14,4km/h) em altitude corresponde a uma carga de 4.4m/seg (15,8km/h) ao nível do mar (Bueno, 1998).

Os métodos de treinamento para desenvolver a resistência básica não diferem na altitude daqueles empregados ao nível do mar. O volume e o número de repetições podem ser idênticos. Entretanto, se deve baixar as velocidades das corridas e aumentar os períodos de recuperação. Os aumentos de carga (maior intensidade, recuperações mais curtas) devem ser controlados cuidadosamente durante os primeiros 10 dias do treinamento em altitude (Bueno, 1998).

Sabe-se da teoria do treinamento que a ênfase do desenvolvimento de um sistema (resistência aeróbia) sempre se produz às custas de outros sistemas. Para tanto, uma carga limitada em um conjunto de movimentos de velocidade, corremos o risco de perder a qualidade do gesto e assim prejudicar o desenvolvimento técnico (coordenação de velocidade, força e técnica). Para superar este problema na altitude, deve-se realizar regularmente treinamento de velocidade anaeróbia alática (curtas distâncias, longas recuperações, volume limitado) (Bueno, 1998).

Apesar do volume total do treinamento anaeróbio estar cuidadosamente distribuído na altitude, é importante que as provas de resistência durem menos de 30 minutos para desenvolver a resistência de velocidade e a resistência específica. Isso é particularmente importante na altitude antes de competições e deve-se realizar utilizando corridas curtas com recuperações mais prolongadas que ao nível do mar. Este tipo de treinamento deve acontecer apenas no último terço de um período em altitude.

Para finalizar, na próxima edição, serão tratados os temas da estrutura do treinamento em altitude e alguns aspectos nutricionais.

Referência Bibliográfica: IAAF@-Letter, dezembro 2003, n.o 6.

Ricardo D´Angelo


Consultor Webrun da seção Alta Performance. Doutorando em Biodinâmica do Movimento e Esporte pela UNICAMP e Mestre em Ciências da Motricidade pela UNESP. Também é treinador coordenador do clube de atletismo BM&FBOVESPA, treinador Nacional de Fundo (CBAt) e treinador Nível IV (IAAF).

Já foi treinador-chefe das Seleções Brasileiras nos Campeonatos Mundiais de Edmonton (2001), Helsinque (2005), Osaka (2007); nos Jogos Pan Americanos do Rio (2007) e Jogos Olímpicos de Pequim (2008). No seu currículo há várias convocações como, por exemplo, Campeonatos Mundiais de Cross Country, Meia Maratona, Campeonatos Sul Americanos, Campeonatos Ibero Americanos, Campeonatos Mundiais e Pan-americanos de Juvenis.

Também é treinador do maratonista Vanderlei Cordeiro de Lima, que foi bicampeão Pan-americano (Winnipeg e Santo Domingo) e Medalha de Bronze em Atenas (2004), entre outros.

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