As Olimpíadas do México proporcionaram o treinamento em altitude
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Os montanhistas, aviadores e trabalhadores contratados para trabalhos pesados a mais de 3.000m de altitude foram os primeiros a se preocuparem com os efeitos da altitude no trabalho e rendimento humano. Essas primeiras preocupações sobre a altitude estiveram simplesmente relacionadas à realização de tarefas físicas, e a maioria das quais não era de natureza competitiva (Daniels, 1990).
Os problemas do treinamento em altitude foram tratados a primeira vez na Bulgária em 1953 (Popov, 1994). Entretanto, até 1963, os problemas de se competir em altitude não eram de interesse dos fisiologistas desportivos que só passaram a tê-los, após o Comitê Olímpico Internacional decidir escolher a Cidade do México para sede dos jogos de 1968. Estava claro que, os atletas que fossem competir na Cidade do México a 2.240m de altitude necessitariam um considerável período de aclimatação, diferente daquele normalmente adotado entre a chegada a uma sede olímpica e o início da competição (Dick, 1979; Daniels, 1990).
Em 1965, as experiências conduzidas como preparação aos Jogos Olímpicos “em altitude” levou à primeira descrição da possibilidade de se efetuar treinamento de hipóxia em um laboratório. Essas experiências, bem como aquelas durante uma permanência de várias semanas na Cidade do México, um ano antes dos Jogos Olímpicos, foram realizadas pelo médico alemão Reindell e seu colega suíço Saltin. Dessa maneira eles puderam determinar previamente as reações agudas à altitude e as adaptações crônicas em conexão com o trabalho físico moderado. Para ajudar na aclimatação muitos países fizeram ajustes para seus atletas treinarem a uma altitude igual ou maior a da Cidade do México.
Isto levou a introdução de uma nova expressão “treinamento em altitude” ao vocabulário dos treinadores (Dick, 1979). Com todas essas considerações, pode-se dizer que nunca, na história da investigação a altitude, houve um avanço de conhecimento tão grande sobre o comportamento do rendimento humano a altitudes médias durante os anos 60 (Hollmann, 1994).
As experiências na Cidade do México logo esclareceram de que forma a altitude afetou os rendimentos dos eventos de resistência. Se os tempos de performance nas corridas de resistência dos Jogos Olímpicos do México são comparados com os melhores tempos destes mesmos atletas em nível do mar conseguidos no princípio do ano, nota-se claramente que as performances em altitude foram consistentemente mais lentas, considerando que estes atletas estavam em sua melhor forma na época dos Jogos Olímpicos. Cada medalhista, desde os 1.500m até a maratona, eram nativos de zonas de altitude ou haviam treinado extensivamente em altitude antes de competir na Cidade do México (Martin, 1994; Bueno, 1998).
Enquanto as primeiras aplicações do treinamento em altitude haviam sido para preparar os atletas para a competição em altitude, a natureza dos ajustes fisiológicos associados com a aclimatação introduziu o conceito de captação em tais ajustes na busca de obter vantagens competitivas em nível do mar. Estes ajustes estão claramente conectados com o sistema de transporte de oxigênio e consequentemente, os atletas que buscam uma maior eficiência deste sistema para vantagem competitiva em sua prova em particular, foram estimulados a continuar este tipo de treinamento.
Talvez, também o êxito dos atletas de resistência, que vivem e treinam em altitude do Quênia e Etiópia, estimularam o mundo desportivo a aceitar a lógica do treinamento em altitude para competições em nível do mar (Dick, 1979; Bueno, 1998). Como resultado, nos anos posteriores ao México e antes de Munique, muitos países investiram capitais consideráveis para tentar melhorar as performances de seus atletas, bem como tentar produzir uma sólida base científica para esta área da teoria de treinamento.
Nos próximos textos serão abordadas questões referentes a qual altitude é mais recomendável para os atletas viverem e treinarem, objetivos, duração, freqüência e metodologia de treinamento.
Referência Bibliográfica:
IAAF@-Letter, dezembro 2003, n.o 6.
Ricardo D´Angelo
Consultor Webrun da seção Alta Performance. Doutorando em Biodinâmica do Movimento e Esporte pela UNICAMP e Mestre em Ciências da Motricidade pela UNESP. Também é treinador coordenador do clube de atletismo BM&FBOVESPA, treinador Nacional de Fundo (CBAt) e treinador Nível IV (IAAF).
Já foi treinador-chefe das Seleções Brasileiras nos Campeonatos Mundiais de Edmonton (2001), Helsinque (2005), Osaka (2007); nos Jogos Pan Americanos do Rio (2007) e Jogos Olímpicos de Pequim (2008). No seu currículo há várias convocações como, por exemplo, Campeonatos Mundiais de Cross Country, Meia Maratona, Campeonatos Sul Americanos, Campeonatos Ibero Americanos, Campeonatos Mundiais e Pan-americanos de Juvenis.
Também é treinador do maratonista Vanderlei Cordeiro de Lima, que foi bicampeão Pan-americano (Winnipeg e Santo Domingo) e Medalha de Bronze em Atenas (2004), entre outros.